Há uma pergunta que se repete todos os verões nas casas portuguesas: “Esse curso tem saída?”
A formulação parece sensata. Nenhuma família deseja que um jovem invista anos de estudo numa formação que não lhe permita construir uma vida autónoma. Num país de salários baixos, habitação inacessível e vínculos precários, seria irresponsável tratar a empregabilidade como uma preocupação menor. Para muitas famílias, escolher um curso não é um exercício abstrato de realização pessoal: é uma decisão económica com consequências reais.
Mas a pergunta contém também uma ideia que raramente interrogamos: a de que, aos 17 ou 18 anos, um jovem deve conseguir antecipar o mercado de trabalho, prever as profissões que continuarão a existir e escolher em conformidade. Como se o futuro fosse suficientemente estável para caber numa lista de cursos ordenados por utilidade.
Enquanto milhares de candidatos aguardam os resultados da primeira fase do acesso ao ensino superior, fala-se novamente nos “cursos do futuro”. Engenharia, tecnologias, dados, inteligência artificial e saúde surgem frequentemente como escolhas seguras. Artes, Humanidades e algumas Ciências Sociais são recebidas com prudência, quando não com uma pergunta que já contém a resposta esperada: “Mas o que vais fazer com isso?”
A distinção entre cursos úteis e inúteis tornou-se tão familiar que quase deixou de parecer ideológica.
A promessa da escolha racional
A ideia de escolher racionalmente parece incontestável. O problema começa quando “racional” passa a significar apenas “provavelmente rentável”.
Uma decisão racional deve considerar as condições materiais, as capacidades do estudante, o seu interesse, a qualidade da formação, as possibilidades de adaptação e a incerteza do próprio mercado. Reduzi-la a uma previsão salarial não é torná-la mais racional; é apenas escolher um único critério e dar-lhe autoridade sobre todos os outros.
Também existe uma contradição evidente: pede-se aos jovens que escolham profissões para um mundo que os próprios adultos dizem estar a mudar a uma velocidade sem precedentes. Algumas competências hoje muito procuradas poderão ser automatizadas, transformadas ou substituídas. Outras, atualmente desvalorizadas, poderão tornar-se essenciais.
O chamado “curso com saída” não é uma garantia. É uma estimativa feita no presente sobre um futuro que ainda não existe.
Isto não significa que todas as escolhas tenham os mesmos riscos, nem que a informação sobre empregabilidade deva ser ignorada. Significa apenas que uma probabilidade não é uma certeza e que uma formação não pode ser avaliada exclusivamente pelo primeiro emprego que permite obter.
A outra simplificação
Em resposta à pressão económica surge, por vezes, uma afirmação aparentemente mais generosa: qualquer curso vale a pena, desde que exista empenho.
Também esta ideia merece desconfiança.
O esforço é importante, mas não elimina as desigualdades do mercado, a origem social, as redes de contactos, a localização geográfica, a qualidade das instituições ou as possibilidades financeiras de cada família. Dois jovens igualmente empenhados podem encontrar condições radicalmente diferentes.
Transformar o empenho numa garantia tem ainda uma consequência injusta: quando o resultado não aparece, a responsabilidade recai inteiramente sobre o indivíduo. Se não encontrou trabalho, não se esforçou suficientemente. Se abandonou o curso, não teve determinação. Se não conseguiu sustentar-se na profissão que escolheu, faltou-lhe iniciativa.
Esta narrativa é confortável porque dispensa a sociedade de olhar para as suas próprias estruturas. O mérito explica o sucesso; a insuficiência pessoal explica o fracasso.
Mas nenhum percurso se constrói apenas com vontade.
Os sonhos que ficam à porta
Nem todos os jovens colocam a primeira opção que desejavam.
Alguns afastam um curso porque a média não chega. Outros porque teriam de estudar longe e a família não pode suportar alojamento e despesas. Há quem escolha uma área considerada mais segura para tranquilizar os pais. Há quem abandone uma vocação antes mesmo de experimentar, convencido de que desejar aquilo é uma ingenuidade.
Por vezes, a escolha apresentada no formulário já é o resultado de várias desistências invisíveis.
Falamos muito da liberdade de escolha, mas pouco das condições que permitem exercê-la. Formalmente, todos podem ordenar seis opções. Materialmente, nem todos escolhem dentro do mesmo horizonte.
Um estudante com casa paga, apoio familiar e possibilidade de prolongar os estudos pode correr riscos que outro não pode. Um jovem de uma família com dificuldades económicas poderá sentir que não está apenas a escolher por si: está a escolher sob o peso das expectativas e dos sacrifícios de todos.
Quando aconselhamos prudência, nem sempre percebemos o que estamos a pedir que fique à porta.
Para que serve uma universidade?
A discussão revela uma questão mais profunda: para que entendemos que serve o ensino superior?
Se a universidade tiver como única função responder às necessidades imediatas das empresas, então o valor de um curso será medido pela rapidez com que coloca diplomados no mercado. O conhecimento que não produz retorno económico direto parecerá supérfluo.
Mas uma sociedade não precisa apenas de técnicos capazes de executar as tarefas atualmente procuradas. Precisa de pessoas capazes de interpretar linguagem, compreender contextos históricos, avaliar argumentos, reconhecer manipulações, pensar eticamente e formular perguntas que ainda não têm resposta.
Estas capacidades não pertencem exclusivamente às Humanidades, tal como o pensamento rigoroso não pertence exclusivamente às Ciências. O problema está na tentativa de reduzir todo o conhecimento à sua aplicação mais imediata.
Uma universidade que apenas acompanha o mercado chegará sempre atrasada. Forma para as necessidades que já existem, não necessariamente para os problemas que ainda estão a surgir.
Escolher sem garantias
Talvez a maior desonestidade seja fingirmos que existe uma escolha sem risco.
Não existe.
Escolher um curso muito procurado não garante realização, competência ou emprego duradouro. Escolher uma área pela qual se sente paixão não garante que essa paixão sobreviva à formação ou consiga transformar-se numa profissão. Mudar de curso não significa necessariamente fracasso. Permanecer também não significa necessariamente coragem.
A escolha deve ser informada, mas nunca será infalível.
O problema não está em falar aos jovens sobre empregabilidade, dificuldades e consequências. Está em apresentar essas informações como se encerrassem a discussão. E também não está em defender o valor dos sonhos. Está em fingir que o desejo, por si só, consegue vencer todas as condições materiais.
Entre o cinismo de “escolhe apenas o que dá dinheiro” e a ingenuidade de “segue o teu sonho e tudo correrá bem” existe um território mais difícil: aquele em que reconhecemos simultaneamente a vocação, o risco, as desigualdades e a incerteza.
É nesse território que uma escolha pode tornar-se verdadeiramente consciente.
Durante estes dias, milhares de jovens aguardam uma colocação que será apresentada como o início do futuro. Para alguns, será a concretização de um desejo. Para outros, uma adaptação possível. Para muitos, apenas a primeira versão de um percurso que ainda mudará várias vezes.
Talvez devêssemos perguntar menos se um curso “tem saída” e mais que portas estamos, enquanto sociedade, dispostos a manter abertas.
Sobretudo para aqueles cujos sonhos ficaram do lado de fora.